Cinema e TV são as duas faces do audiovisual, e, justamente por isso, artes irmãs. No entanto, até pouco tempo atrás, eram bastante separadas. Até séries como Família Soprano e Breaking Bad revolucionarem a televisão, muitos nomes do cinema (atores, diretores, produtores) tinham preconceito com as telinhas, e temos visto essa separação ruir aos poucos.
Ainda assim, antes e depois dessa integração se intensificar, os mais variados diretores de cinema se aventuraram na televisão para contar histórias que acreditavam necessitar de mais tempo de tela. Suas séries faziam exatamente o que veríamos se tornar o lugar-comum da televisão: utilizar a linguagem do cinema independentemente do tamanho das telas em que a obra seria assistida.
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David Lynch
Não poderíamos começar essa lista de outra forma. Quando se fala em grandes autores do cinema que se aventuraram nas telinhas, o nome de David Lynch é o primeiro que vem à mente — e não à toa. Seu trabalho na televisão foi nada mais nada menos do que Twin Peaks (1990-1991), a cultuada série surrealista da ABC cuja terceira temporada (lançada como Twin Peaks: O Retorno em 2017 pelo Showtime) foi também o último trabalho do diretor.
Em Twin Peaks, acompanhamos o excêntrico agente do FBI Dale Cooper (vivido por um parceiro de longa data de Lynch, o ator Kyle MacLachlan), que é enviado para a cidade-título para investigar o assassinato da jovem Laura Palmer (Sheryl Lee), de 17 anos. O crime misterioso, no entanto, é apenas o pano de fundo da série, que logo se debruça sobre temas mais sombrios e explora conceitos visuais oníricos e surrealistas típicos da filmografia de Lynch. A oposição entre a inocência juvenil de Palmer e mal profundo dos antagonistas é a marca registrada da série.
Embora sua repercussão à época tenha sido moderada, com o fracasso da segunda temporada levando ao cancelamento da série por décadas, ela é hoje considerada um marco da televisão americana e foi uma das precursoras do modelo atual de produção de séries, que se consolidaria a partir do final dos anos 90 em produções da HBO como Oz (1997-2003) e Família Soprano (1999-2007). Se essas séries são tidas como as responsáveis por viabilizar a produção para televisão com cara de cinema, Twin Peaks é o seu antecedente mais óbvio.
Logo após as duas temporadas originais, a série também ganhou um filme prequel entitulado Twin Peaks: Os Últimos Dias de Laura Palmer (1992), que estreou em Cannes e, embora amplamente criticado à época (sobretudo pelas cenas intensas de abuso sexual), é hoje considerado por alguns especialistas como um dos melhores filmes dos anos 90, tendo alcançado o status de “clássico cult”.
 Scenes from a Marriage 1973, directed by Ingmar Bergman | Film review](https://media.timeout.com/images/102793517/750/422/image.jpg)
Ingmar Bergman
Quase duas décadas antes da estreia de Twin Peaks, o renomado mestre sueco Ingmar Bergman se lançou na televisão com a devastadora minissérie de seis episódios Cenas de um Casamento (1973), inicialmente exibida no canal sueco SVT ao longo de pouco mais de um mês. A minissérie traz todas as características da obra do diretor, e reúne no elenco algumas das suas colaborações mais frequentes, como as atrizes Liv Ullmann e Bibi Andersson (famosas pela dinâmica incrível no clássico Persona, de 1966) e os atores Jan Malmsjö (de Fanny e Alexander) e Erland Josephson (de Gritos e Sussurros).
Ao longo dos seus seis episódios de uma hora (que no ano seguinte seriam condensados em um filme que ganharia o Globo de Ouro de Melhor Filme em Língua Estrangeira), a série cobre 10 anos do relacionamento de um casal vivido por Ullmann e Josephson, desde o seu aniversário de 10 anos de casados até o seu divórcio. O retrato complexo do amadurecimento e fim de um relacionamento fez de Cenas de um Casamento uma das minisséries mais influentes de todos os tempos, e seu impacto profundo é até hoje creditado como responsável pelo fim de muitos relacionamentos.
A série influenciou grandes diretores como Woody Allen e Richard Linklater, garantindo também um filme-sequência para TV (Saraband, de 2003) e um remake da HBO lançado em 2021, estrelado por Oscar Isaac e Jessica Chastain.
 Berlin Alexanderplatz (1980) | MUBI](https://images.mubicdn.net/images/film/839/cache-91090-1745491868/image-w1280.jpg)
Rainer Werner Fassbinder
Um dos grandes nomes do Novo Cinema Alemão, o diretor Rainer Werner Fassbinder também se aventurou na televisão com a minissérie de 14 episódios Berlin Alexanderplatz (1980), adaptação do livro clássico de mesmo nome de Alfred Döblin. Com uma duração total de pouco mais de 15 horas, a série conta a história de um assassino recém-liberto que luta para sobreviver e escapar do mundo do crime na Alemanha de Weimar, que vivia a ascensão do nazismo.
A série foi tratada como um projeto passional do diretor, e traz muito do estilo voyeurístico e intimista que marcou alguns de seus filmes como O Casamento de Maria Braun (1979) e O Desespero de Veronika Voss (1982), lançados na mesma época. Além disso, a série marcou seu primeiro trabalho com o diretor de fotografia Xavier Schwarzenberger, com quem trabalharia até a sua morte dois anos depois. O trabalho conjunto dos dois enfatiza o aspecto claustrofóbico e quase teatral do drama do protagonista, e o uso da iluminação tênue nos ambientes mantém viva a sensação de desconforto recorrente que Fassbinder busca trazer para a época.
A recepção na Alemanha não foi positiva de início, muito por conta da amoralidade da trama e da opção por construir uma conclusão quase surrealista, mas o mercado internacional abraçou o trabalho do diretor e, com o tempo, a série adquiriu uma fama cult que a mantém viva até hoje, com eventuais remasterizações e relançamentos em diferentes países.
 Film Fest Gent | Riget II (The Kingdom II)](https://filmfestival.cdn.amplifydigital.be/https%3A%2F%2Fwww.filmfestival.be%2Fvolumes%2Ffiona%2Fc19b5368-49df-46f5-9c77-e66c30507981.jpeg%3Fv%3D1716372910?auto=compress%2Cformat&crop=focalpoint&fit=crop&fp-x=0.5&fp-y=0.5&h=598&q=80&w=1282&s=f5efa5a2bc38afab145167bbba6a5c6c)
Lars von Trier
Um dos fundadores do movimento cinematográfico conhecido como “Dogma 95”, que propunha um cinema radicalmente realista a partir do minimalismo técnico, o diretor dinamarquês Lars von Trier teve na TV um dos seus grandes laboratórios visuais: a série de terror O Reino. Lançada no canal dinamarquês DR, a série teve ao todo três temporadas: a primeira, com apenas quatro episódios, saiu em 1994; a segunda, com outros quatro, chegou em 1997; já a terceira, com cinco episódios, foi lançada tardiamente sob o título de O Reino: Exôdo em 2022 (em pareceria com a Mubi).
O Reino acompanha a ala neurocirúrgica do Rigshospitalet (“Hospital Nacional/do Reino”), em Copenhague — o maior hospital universitário da Dinamarca. O próprio Von Trier reconhece a influência direta de Twin Peaks na produção, que abraça o elemento surrealista ao trazer o terror para discussão. Além disso, as três temporadas trazem a direção trêmula e o humor absurdista característicos da fase inicial da carreira de Von Trier, com Êxodo servindo como uma homenagem do diretor aos seus filmes mais antigos. Em geral, sua recepção foi positiva, apesar de alguns críticos a considerarem excessivamente cruel, e O Reino tem sido cada vez mais reconhecida como um marco de inventividade na televisão.
A série chegou a ganhar um remake norte-americano roteirizado por Stephen King: a série Kingdom Hospital (2004), da ABC. No entanto, essa versão durou apenas uma temporada e foi cancelada por baixa audiência.

Paolo Sorrentino
O diretor Paolo Sorrentino, um dos maiores nomes em atividade do cinema italiano, também se aventurou na televisão com a dupla de minisséries O Jovem Papa (2016) e The New Pope (2020), ambas com Jude Law encarnando o disruptivo papa fictício Pio XIII. As duas produções foram exibidas inicialmente no canal italiano Sky Atlantic e coproduzidas por eles, pela HBO e pela emissora francesa Canal+.
Em O Jovem Papa, acompanhamos a ascensão do jovem cardeal nova-iorquino Lenny Belardo ao cargo máximo da Igreja Católica. O papa fictício representa uma ala tradicionalista radical da Igreja, e logo entra em confronto com outras alas do Vaticano e com figuras da política italiana. Apesar de acusada de exageros por parte do público católico italiano, a sátira de Sorrentino foi aclamada, liderou a audiência em seu país natal (vencendo em audiência até mesmo a estreia da sexta temporada de Game of Thrones na Itália) e também se tornou a primeira produção italiana a ser indicada ao Emmy, onde conseguiu duas indicações.
Todo esse sucesso gerou a sequência The New Pope, que começa com o protagonista de Jude Law em coma e tendo sido substituído por um progressista radical, o também fictício Papa Francisco II. A morte repentina desse sucessor leva à ascensão do cardeal britânico Sir John Brannox (vivido por John Malkovich) que se torna o centrista Papa João Paulo III. Essa sequência busca se aprofundar na política interna do Vaticano até finalmente mostrar o confronto entre os dois papas. Apesar disso, sua recepção não foi tão positiva quanto a da série original, e a trajetória dos personagens foi encerrada em definitivo — ao menos por enquanto.
 Interview: Now Apocalypse's Avan Jogia - Brief Take](https://brieftake.com/wp-content/uploads/2019/03/nas1_101_061818_0396_a-1024x684.jpg)
Gregg Araki
Outro nome de sucesso dos Anos 90 se aventurou na TV, ainda que décadas depois de Von Trier. Gregg Araki, de clássicos do New Queer Cinema como Geração Maldita (1995) e Estrada Para Lugar Nenhum (1997), lançou em 2019 a série Now Apocalypse pelo canal Starz.
Aqui, a trama segue personagens característicos da filmografia de Araki (jovens perdidos explorando a própria sexualidade) mas flerta com uma comédia surrealista na medida em que o protagonista Ulysses, vivido por Avan Jogia, enfrenta visões persistentes do iminente fim do mundo — que considera que podem ser alucinações induzidas por drogas. O elenco contava ainda com nomes como Kelli Berglund, Beau Mirchoff e Tyler Posey.
Cancelada após 10 episódios pela baixa audiência, a série também teve o envolvimento de Steven Soderbergh (diretor de Erin Brockovich e Onze Homens e um Segredo) na produção executiva, e foi o único projeto verdadeiramente autoral de Araki na televisão. Apesar disso, o diretor também teve rápidas passagens como diretor convidado em episódios de 13 Reasons Why (2017-2020) e em um único episódio de Riverdale (2017-2023).

Luca Guadagnino
O diretor italiano de sucessos como Me Chame Pelo Seu Nome (2017) e Rivais (2024), Luca Guadagnino, foi o responsável por comandar a coprodução entre a HBO e a Sky Atlantic We Are Who We Are (2020). A minissérie é um coming-of-age focado em um adolescente (Jack Dylan Grazer) filho de duas soldados estadunidenses (vividas pelas excelentes Chloë Sevigny e Alice Braga) que cresce em uma base militar dos EUA na costa da Itália e vive seu primeiro amor.
Apesar da prolífica carreira de Guadagnino, We Are Who We Are segue sendo sua única produção para TV, com ele tendo dirigido todos os oito episódios e assinado o roteiro juntamente de Paolo Giordano. A série teve uma recepção mista, com alguns elogiando seu retrato da crise de identidade da adolescência como profundo e outros a considerando excessivamente próxima de séries como Euphoria (2019-2026), da própria HBO.
 Devs: série explicada, determinismo e significado do final](https://ramosdaciencia.com.br/wp-content/uploads/2025/12/devs-serie.jpg)
Alex Garland
Dando seguimento ao sucesso de seu longa Ex Machina (2014), que foi indicado a dois Oscars e levou um, o diretor norte-americano Alex Garland retornou ao Vale do Silício com a minissérie Devs (2020), produção do canal FX para o serviço de streaming Hulu.
A série é protagonizada por Sonoya Mizuno (a Mysaria de A Casa do Dragão), que vive uma engenheira de software em uma empresa de computação quântica que se vê presa em uma trama de mistérios quando seu namorado é assassinado em seu primeiro dia na empresa. O elenco é reforçado por nomes como Nick Offerman, Cailee Spaeny e Alison Pill.
Devs conseguiu uma repercussão consideravelmente positiva, apesar de alguns criticarem seu ritmo lento e estilo contemplativo — característicos do trabalho de Garland. Como minissérie, conseguiu quatro indicações ao Emmy, mas apenas em categorias técnicas. Apesar disso, alguns críticos a destacaram como um dos melhores trabalhos de ficção científica para televisão, e a série se tornou a mais assistida da Hulu naquele ano.
 Watch Copenhagen Cowboy | Netflix Official Site](https://occ-0-2219-2218.1.nflxso.net/dnm/api/v6/9pS1daC2n6UGc3dUogvWIPMR_OU/AAAABS-sbDhnDfAvBp3nwTTjV_LsgYTBKGuXUv8dwe8ah_BZgZ_yvM5ClFfWwWZXFkBqahmyUaHljElvW10EooifHcIhLsf4o2W_cMQV3d1tbmbi-aE4MKSdat9DWg.jpg?r=986)
Nicolas Winding Refn
Também no streaming, o diretor dinamarquês Nicolas Winding Refn (conhecido pela trilogia de ação Pusher, que lançou a carreira de Mads Mikkelsen no cinema, e por Drive, de 2011) desenvolveu duas minisséries de autoria própria.
A primeira foi Muito Velho Para Morrer Jovem, lançada no Prime Video em 2019. Essa minissérie de dez episódios foi o primeiro projeto de Refn após a controversa estreia de seu filme Demônio de Neon (2016) em Cannes, onde foi recebido com tantas vaias quanto aplausos na plateia do Festival. Protagonizada por Miles Teller, a série conta a história de um detetive que vive uma vida dupla como assassino de aluguel, e que, após o assassinato de sua amada, precisa confrontar os pecados de seu passado. Apesar de trazer as cores vibrantes e a violência cru que marca o estilo do diretor, Muito Velho Para Morrer Jovem teve uma recepção mista, com alguns elogiando sua agressividade e outros a vendo como apelativa.
Já em 2023 Refn lançou a minissérie Copenhagen Cowboy, na Netflix. A série foi sua primeira produção em sua língua materna (o dinamarquês) desde Pusher 3, de 2005. Com uma pegada mais sobrenatural, acompanhamos a personagem Mia (Angela Bundalovic), dotada de poderes psíquicos e capaz de atrair a sorte, que retorna a Copenhague com motivações ocultas e precisa navegar o submundo do crime da cidade. A temática é clássica para Refn, e a crítica elogiou os aspectos visuais da série, apesar de criticar o seu ritmo e tom.
 Disclaimer": série com Cate Blanchett para o Apple TV ganha trailer; veja | CNN Brasil](https://admin.cnnbrasil.com.br/wp-content/uploads/sites/12/2024/06/difamacao.jpg?w=1200&h=675&crop=1)
Alfonso Cuarón
Talvez o exemplo mais recente dessa lista, o célebre diretor mexicano Alfonso Cuarón (que alcançou a fama internacional com E Sua Mãe Também, de 2001, e dirigiu filmes como Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban e Gravidade) iniciou em 2019 um contrato de exclusividade com o serviço de streaming Apple TV+ para desenvolver suas próprias séries.
A primeira produção de Cuarón para a Apple foi a minissérie Disclaimer (2024), um thriller psicológico estrelado por Cate Blanchett e Louis Partridge que conseguiu duas indicações ao Emmy. A série se destacou pela trama intensa e cheira de reviravoltas, contando a história de uma jornalista intensa (Blanchett, em mais um ótimo papel) que recebe um livro publicado e descobre que a trama do romance não apenas é baseada na sua própria vida, como expõe o seu segredo mais sombrio. Cuarón, que assina o roteiro e a direção, trouxe para a série colaboradores históricos dos seus filmes, como os diretores de fotografia Emmanuel Lubezki e Bruno Delbonne, ajudando a fazê-la parecer um grande filme de sete horas — com direito aos planos longos e ângulos abertos característicos do diretor.
O próximo projeto para streaming de Cuarón será a série de drama com toques de terror psicológico Ascension, ainda não lançada, que marcará o primeiro trabalho da atriz Caitríona Balfe após o fim de Outlander. Na trama, Balfe vive uma documentarista implacável e recém-divorciada que começa a investigar um culto misterioso do século XX conhecido como Igreja da Ascensão. Aqui, porém, Cuarón e seu irmão atuarão apenas como roteiristas e produtores executivos, enquanto Natalie Erika James (do terror Insaciável) cuidará da direção e comandará a série ao lado de seu co-showrunner Christian White.
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