Apesar de ser um pilar do gênero, com o título da série de comédia live action de maior duração da história da TV, com um fandom dedicado e ideias mirabolantes inacabáveis, com 177 episódios em 17 temporadas, mais de vinte anos de duração, sempre parece que quase ninguém conhece.
Este é o caso da série de comédia It's Always Sunny in Philadelphia, que estreou em 04 de agosto de 2005 e foi criada e desenvolvida por Rob Mac, Glenn Howerton e Charlie Day, para o canal FXX, o grupo de atores e amigos produziu de maneira independente um piloto de uma série de comédia que era o cumulo do absurdo e do politicamente incorreto, porém, com um olhar satírico tão único que, apesar de não ser própria para quase TV alguma, foi uma aposta pela emissora, e uma muito bem-sucedida.
A série tem uma comédia muito ácida, com um humor quase surrealista pelas situações completamente bizarras em que o elenco principal se mete, sendo muito mal interpretada pelo público geral e rechaçada pela crítica de internet, apesar de muito bem avaliada pela crítica especializada, porém, um clássico no meio mais alternativo, criando um cult following investido e duradouro. Cada episódio é mais enérgico que o anterior, com situações que variam do absurdo ao completamente criminoso.
Esse sucesso, no entanto, não atinge o main stream devido as concepções enganosas sobre o seu tipo de humor, que, por muitas vezes usa de artifícios como sátira, analogia e metáforas visuais e textuais para comentar sobre parte da sociedade americana, saúde mental, comunidade trans, armamento, política e, até mesmo, o conflito entre Israel e Palestina no ano de 2006 em sua segunda temporada, utilizando de um texto metafórico que cobre o conflito de maneira mais explicativa do que muitas séries com propostas sérias, porém, Sunny jamais é levada a sério e, por muitos, criticada, por causa de um fator muito importante: Durante toda duração da série, nós assistimos cinco pessoas horríveis cometendo pequenas infrações e atrocidades, em um show de preconceito e ideologias nocivas que servem para ilustrar que eles são aquilo que há de errado com a sociedade.
Rimos deles, e nunca com eles, no entanto, a série tem uma escrita tão cativante que, no final, apesar de entendermos eles como pessoas ruins, eles ainda assim se tornam muito charmosos e queridos.
Os personagens são:
Charlie (Charlie Day), um faxineiro, ele possui claramente um passado e infância conturbada com uma mãe disfuncional, ele é um perseguidor com uma obsessão por uma garçonete (Mary Elizabeth Ellis), ele claramente possui alguns transtornos de desenvolvimento e é semianalfabeto.
Mac (Rob Mac), um segurança que tenta ser durão, criado em um ciclo de violência e negligencia, uma criança que claramente nunca cresceu, obcecado por cenas de ação e de masculinidade bastante frágil, ele é um fanático religioso e obviamente gay.
Dee (Kaitlin Olson), uma aspirante a atriz sem carisma e com medo dos palcos que desconta sua baixa autoestima nos outros, extremamente agressiva e vingativa, ela vive em um estado de competição com seu irmão, Dennis, e, apesar de sempre querer ser a voz da razão, acaba por ser uma das personagens mais moralmente falidas da série.
Dennis (Glenn Howerton), um homem vaidoso e controlador com uma personalidade extremamente narcisista que pode, ou não, ser um psicopata, retratado diversas vezes como um predador, ele tem o ego muito frágil e é propenso a raiva explosiva devido ao seu complexo de superioridade.
E Frank (Danny DeVito), o pai de Dee e Dennis, um ricaço que abandona sua vida de luxo para viver na decadência junto com os outros, tendo feito sua fortuna através de crimes e exploração, ele é um homem sem bússola moral e com vários esquemas.
Essa é a gangue, donos de um bar irlandês falido chamado Paddy's Pub na Philadelfia e sempre atrás de alguma maneira de enriquecer. Dentro das situações que eles vivem, o humor não possui limite, sendo escrachado, e, por vezes, isso atrai o público errado, achando as situações engraçadas pelo que elas são e não o que representam, sem entender a crítica por trás. Sunny é uma série que precisa se ver de mente aberta, senso crítico afiado e atenção no subtexto, não é uma série de tela dividida, não pode ser levada no sentido literal e tem muito a oferecer, sem contar que, na nossa humilde opinião, é a série de comédia mais engraçada da história da TV, transformando as situações mais horríveis em piadas rápidas e inesperadas, além de nos fazer questionar os limites da humanidade.
E se essa descrição ainda não te convenceu, aqui vai uma lista dos 10 melhores episódios da série, na nossa opinião.
Menção Honrosa:
Mac Encontra seu Orgulho da temporada 13 episodio 10, onde Mac entra em sua jornada de auto aceitação e tenta se assumir ao seu pai, levando Frank com ele nessa jornada que termina com uma dança interpretativa extremamente tocante e vulnerável, entrando para a história como o episódio mais emocionante da série, com uma linda mensagem LGBTQIAP+.
10 - Herói ou Crime de Ódio. Temporada 12 episodio 06.

Após uma raspadinha premiada ser obtida pela Gangue, eles entram em um confronto sobre quem tem direito ao dinheiro ou não, contratando um mediador legal para resolver a causa, a discussão logo escalona para uma narrativa completamente inesperada de uma espécie de whodunit, culminando em um final surpreendente e, até mesmo, emocionante.
9 - Mac e Dennis se Mudam para o Subúrbio. Temporada 11 episodio 05.

Bem de acordo com o que o título promete, os personagens se mudam para o subúrbio, porém, seus estilos de vida não batem com o ideal de família nuclear americana suburbana e o episódio logo se transforma em um terror psicológico onde eles, aos poucos enlouquecem, com reações desproporcionais e loucura vista em obras como O Iluminado, porém, com um humor surreal.
8 - PTSDee. Temporada 12 episodio 07.

Após um stripper dizer a ela que ela havia sido seu fundo do poço e agora ele iria melhorar de vida, Dee começa uma derrocada contra o homem que a humilhou, ultrapassando todos os limites aceitáveis da vingança em um dos finais mais perturbados e engraçados da série.
7 - O Faxineiro Sempre Varre Duas Vezes. Temporada 14 episodio 06.

O episódio segue o estilo Noir, uma história de detetive com o Charlie no centro enquanto ele tenta descobrir quem anda envenenando tortas, contando a história com um visual de arte preto e branco, com apenas destaques para a cor vermelho, em uma omage a Sin City, contando também com narrações em off e reviravoltas mirabolantes.
6 - The Nightman Cometh. Temporada 4 episodio 13.

Um episódio duplo e musical, Charlie escreve um musical que levanta vários questionamentos de seus amigos sobre sua vida e infância e o que as músicas contam sobre ele, com temas extremamente pesados sendo aludidos e retratados, para no final, servir como mais um dos esquemas de Charlie, é um episódio genial que conta com uma apresentação do musical ao vivo para quem quiser ver no youtube.
5 - A Gangue se Torna Preta. Temporada 12 episodio 01.

A Gangue acorda em um musical onde eles foram, de alguma forma, transportados para corpos de pessoas negras e tem de lidar com a vida completamente diferente sem seus privilégios brancos cobrindo boa parte de seus esquemas, é um episódio muito engraçado, porém, com um comentário social forte sobre vivencia e um final terrível e extremamente real.
4 - Bebê de Cem Dólares. Temporada 2 episodio 05

Depois de uma tentativa de assalto sofrida pela gangue, onde eles jogam Dee na frente para poderem fugir, ela decide treinar para poder aprender a se defender, a narrativa logo se transforma em uma história sobre anabolizantes, tirando muitas referências de filmes como Clube da Luta e Menina de Ouro, na nossa opinião, o episódio que consolida a série no que ela é, sendo ali que o tom se encontra finalmente.
3 - A Gangue é Analisada. Temporada 8 episodio 06.
Após entrarem em uma disputa sobre quem deveria lavar a louça do jantar, Dee faz todos irem a sua psiquiatra para resolverem seus problemas, o que ocasiona em várias sessões individuais onde todo o psicológico dos personagens é posto em cheque, trazendo à tona algumas das cenas mais engraçadas da série inteira, com relatos emotivos de Frank, paranoias da Dee, atitudes perturbadoras de Dennis, obsessões de Mac e o pombo morto de Charlie.
2 - Direito da Mulher ao Corte. Temporada 14 episodio 09.

Este episódio usa a metáfora do corte de cabelo para falar sobre o aborto, que havia acabado de ser proibido em vários estados dos EUA, trazendo uma conversa muito necessária com uma comédia sensacional, um exemplo perfeito sobre comentários políticos na série e a maneira como eles são tratados.
1 - Trabalho do Charlie. Temporada 10 episodio 4.

Este é um episódio em plano sequência acompanhando um dia de trabalho do Charlie no dia da inspeção da vigilância sanitária, esse episódio trabalha suas piadas do início ao fim, com nenhum segundo dele sendo desperdiçado, cada coisa feita tem um pay off no final, uma verdadeira obra de arte do gênero, um episódio para estar no hall da fama de episódio de comédia.
Por isso, em vista do lançamento da temporada 18 no dia 17 de agosto, quem sabe não é hora de mudar um pouco seu repertório e tentar dar uma chance a It's Always Sunny in Philadelphia.





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