Entre a tradição cinematográfica e uma visão global de produção
O cinema contemporâneo vive uma disputa permanente pela atenção do espectador. Em uma era marcada pela aceleração dos estímulos visuais, pela fragmentação da concentração e pela predominância de conteúdos de consumo rápido, insistir na construção de uma atmosfera densa, sofisticada e imersiva tornou-se quase um ato de resistência estética.
É justamente nessa interseção entre o rigor técnico do cinema clássico e uma perspectiva de produção voltada ao mercado internacional que se encontra a cineasta, roteirista e produtora brasileira Renata Jones.
Membro da Academia Brasileira de Cinema e à frente da Jones Pictures, Jones vem construindo uma trajetória particularmente interessante dentro do cinema de gênero nacional. Sua identidade visual dialoga diretamente com referências como o film noir, o giallo italiano e o Expressionismo Alemão, mas sem transformar essas influências em simples exercícios de reprodução estética.
Em vez disso, a cineasta utiliza essas referências como ferramentas narrativas para construir uma linguagem própria, marcada pelo controle da atmosfera, pela manipulação da informação e pela valorização da experiência do espectador.
Um dos exemplos mais representativos dessa proposta é We, Brothers, produção rodada integralmente em inglês e ambientada na Chicago dos anos 1940. Ao deslocar sua narrativa para fora das fronteiras geográficas e culturais mais tradicionais do cinema brasileiro, Jones demonstra que uma produção realizada no Brasil pode assumir uma vocação internacional sem necessariamente abandonar sua origem ou sua identidade produtiva.

Mais do que uma realizadora preocupada exclusivamente com a composição visual, Renata Jones demonstra atuar também como estrategista do ritmo, da narrativa e da informação. Seus projetos em desenvolvimento, como o thriller histórico e sobrenatural Harriet, ambientado no Brasil de 1890, reforçam essa característica ao combinar reconstrução de época, suspense e elementos sobrenaturais com conflitos humanos de alcance universal.

Para compreender melhor os pilares de sua construção cinematográfica, a relação entre intuição artística e gestão executiva na Jones Pictures e os desafios enfrentados pelo cinema de gênero brasileiro, Renata Jones conversou conosco sobre sua carreira, seu processo criativo e sua visão para o futuro do audiovisual nacional.
Entrevista Exclusiva: Renata Jones
Marcos Phellipe: Sua identidade visual transita por estéticas clássicas e densas, como o film noir e o giallo italiano, que exigem paciência e imersão do espectador. No cenário atual, dominado por cortes rápidos e pela cultura do TikTok, como você equilibra a fidelidade à sua autoria artística com as demandas de atenção rápida do público digital?
Renata Jones: Nossa, uma excelente pergunta. Amo essas perguntas que a gente tem que pensar bastante. Eu, enquanto escrevo o roteiro, sempre tenho em mente as transições e cortes, a fluência do filme na cabeça e vou desenvolvendo ao mesmo tempo os dois.
Sinto que, mesmo com essa tendência de cortes rápidos, existe uma necessidade grande de ter calma e respiração na cena. A ambientação, a atmosfera, é tudo em um filme. Então procuro sempre tentar mergulhar o espectador nisso, puxando ele para dentro. A trilha sonora, é claro, ajuda.
Também gosto de planos e sequências longas, então é um desafio. Gosto de cortes rápidos para cenas de ação, de raiva, de emoções intensas.
Admiro muito o Kubrick pela ambientação de O Iluminado. Aos pouquinhos, nós vamos mergulhando no estado mental do protagonista e na ambientação do hotel. Se esse filme fosse dirigido hoje por um cineasta que faz cortes rápidos, seria um desastre.
Produzir no Brasil pensando no mercado internacional

Marcos Phellipe: Com We, Brothers, você optou por gravar inteiramente em inglês e ambientar a narrativa em Chicago, desafiando a lógica de que o cinema brasileiro precisa falar exclusivamente de realidades locais. Qual foi o maior aprendizado estratégico — tanto criativo quanto logístico — ao produzir conteúdo com apelo estético global a partir do Brasil?
Renata Jones: Nossa estrutura e nossos profissionais. Construímos um filme pensado desde o início para dialogar com o mercado internacional. Isso exige estudo e planejamento.
Precisamos enxergar o Brasil como uma base de produção, um hub internacional.
O suspense como arquitetura da informação
Marcos Phellipe: Seus roteiros costumam apostar em narrativas não lineares e fortes doses de suspense psicológico. Como você gerencia o “ritmo da informação” que é entregue ao espectador para garantir que a tensão se mantenha alta sem cair no previsível?
Renata Jones: O espectador precisa acreditar que está entendendo o que está acontecendo, mas nunca deve ter todas as peças do quebra-cabeça.
Gosto de controlar cuidadosamente o ritmo da informação. Eu não escondo do público o que está acontecendo, e sim revelo, de certa forma, no tempo certo.
Também gosto de colocar pequenas pistas ao longo do filme que só ganham outro significado quando o espectador conhece o contexto completo.
Para mim, o suspense psicológico funciona bem quando o público está tentando antecipar o que vai acontecer. Quero que as pessoas absorvam o que estão assistindo, acreditem em tudo o que estão vendo e, de repente, tenham o tapete puxado.
Eu gosto muito de surpreender o espectador, mas essa surpresa precisa ser inevitável. Depois que ela acontece, o espectador olha para trás e percebe que as pistas estavam ali o tempo todo.
Cinema de época: quando a diferença temporal se transforma em linguagem

Marcos Phellipe: De Chicago nos anos 1940 à atmosfera histórica e sobrenatural do Brasil de 1890 em seu próximo projeto, Harriet, a construção de época é uma constante marcante. Qual é o elemento mais desafiador na hora de convencer o espectador moderno a suspender a descrença e mergulhar em mundos tão distantes no tempo?
Renata Jones: Eu gosto justamente dessa estranheza de uma época diferente da nossa. Os costumes, as vestimentas, a maneira como as pessoas se comportavam... acredito que isso tudo chame a atenção do espectador e os transporte para aquele universo.
Essa diferença de época não precisa ser escondida. Pelo contrário, ela pode ser uma das coisas mais fascinantes do filme.
Gosto que o público perceba que está em outro tempo, em outra vida, mas que se envolva emocionalmente com personagens que têm sentimentos e que são universais.
Se os personagens são humanos, complexos e verdadeiros, o público embarca na história, independentemente de ela se passar em Chicago nos anos 1940 ou no Brasil de 1890.
Em um filme de época, existem três pilares muito fortes para criar essa experiência: direção, direção de arte e fotografia.
A direção conduz o espectador, encontrando a melhor e mais instigante maneira de contar aquela história para o público. É a direção que decide quando revelar, quando esconder, quando surpreender e quando emocionar.
A direção de arte constrói visualmente a época através dos cenários e figurinos. E a fotografia cria a atmosfera e a identidade visual do filme.
Quando a diretora também precisa ser produtora

Marcos Phellipe: Além de dirigir e roteirizar, você assume a posição de fundadora e CEO da Jones Pictures. Como essa visão empresarial e executiva molda suas escolhas criativas no set? Você sente que a diretora protege a empresária, ou a empresária precisa podar a diretora às vezes?
Renata Jones: É muito interessante essa pergunta. Em We, Brothers, eu tive exatamente essa experiência no set.
Enquanto filmava como diretora, eu também era a produtora executiva. Então todas as questões financeiras passavam por mim o tempo todo, e eu precisava resolver na hora.
Às vezes, entre um take e outro, precisei tirar a cabeça da direção por alguns minutos e cuidar de coisas completamente diferentes, como comprar cabos novos, pagar o aluguel de equipamentos, resolver uma questão de orçamento ou uma necessidade que surgia naquele momento.
E não foi difícil. É preciso manter a calma, saber o que está fazendo e tomar decisões rapidamente. Gosto desses desafios.
Às vezes, é até bom que a cabeça da gente diversifique o que está fazendo. Você tira a atenção da direção por alguns minutos, resolve uma questão prática e depois volta para o set com a cabeça mais fresca.
Eu acredito muito no sucesso de um(a) diretor(a) que seja também produtor(a), pois ele encontra um equilíbrio justo entre as duas funções.
Nunca me senti podada como artista ou diretora pela minha parte produtora na hora de realizar algo. Pelo contrário: ser produtora ajuda muito na hora de criar um novo filme, pois já conheço o caminho que precisa ser percorrido para que aquela ideia saia do papel e chegue à tela.
A empresária não precisa podar a diretora. Ela precisa dar condições para que a diretora consiga realizar aquilo que imaginou.
O reconhecimento internacional e a quebra de fronteiras
Marcos Phellipe: Você recebeu o prêmio de Melhor Diretora de Curta Internacional no LABFF. Quando vê sua obra circulando em festivais internacionais e gerando debates, qual feedback do público ou da crítica especializada mais te surpreende por ter captado exatamente a intenção oculta por trás da sua direção?
Renata Jones: O que mais me surpreendeu foi justamente a reação de americanos que assistiram a We, Brothers e vieram falar comigo depois da sessão dizendo que tinham gostado muito do filme.

Isso me deixou muito, mas muito feliz, porque, de certa forma, eu estava contando uma história que pertence ao imaginário e à cultura deles.
Também fiquei muito feliz com uma matéria da Mídia Ninja que conseguiu captar uma intenção que estava por trás do projeto: a ideia de que brasileiros não precisam estar limitados a representar apenas a si mesmos e podem contar histórias que acontecem em qualquer lugar do mundo.
A matéria falou sobre brasileiros em seus filmes “livres da obrigação de representarem a si mesmos para sempre”, e essa frase me marcou muito.
Quando um americano assiste ao filme, reconhece aquela atmosfera e aquela linguagem e, ainda assim, se conecta com a história, sei que conseguimos!
O futuro do cinema de gênero brasileiro

Marcos Phellipe: O cinema de gênero, como o suspense e o terror psicológico, tem ganhado tração e conquistado novos públicos no Brasil. Na sua visão, o que ainda falta para que produções de gênero nacionais alcancem o mesmo peso de bilheteria e conversação cultural que o drama tradicional no país?
Renata Jones: O cinema brasileiro tem excelentes profissionais e já mostrou que pode fazer drama de altíssimo nível.
O que ainda falta é investir mais em outros gêneros e acreditar que eles também podem alcançar um público muito grande.
O Brasil precisa investir em novos cineastas, novas histórias, novas possibilidades.
O público brasileiro e mundial gosta de suspense, terror e de histórias que provocam emoções fortes. O que precisamos é de filmes que tenham uma identidade brasileira, mas que sejam capazes de competir em linguagem, qualidade técnica e, principalmente, na narrativa com produções internacionais.
Também precisamos trabalhar melhor a divulgação e a distribuição.
Um filme pode ser excelente, mas, se o público não souber que ele existe, não adianta. É preciso criar eventos, campanhas e estratégias que façam as pessoas quererem assistir nos cinemas.



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