Quando falamos de Festivais de Cinema, estamos falando de um tipo de evento com uma origem direta na forma como a arte era consumida antes da sua difusão em grande escala. Eventos do tipo para artes como pintura e escultura existem desde a antiguidade, e costumavam ter um foco muito mais acadêmico e elitista. Foi no Século XIX que o Príncipe Albert, marido da Rainha Vitória do Reino Unido, idealizou as chamadas “Feiras Mundiais”, que ocorrem até hoje de cinco em cinco anos, como forma de levar a arte e a ciência da época para diferentes camadas sociais de fora da nobreza. As Bienais de Arte surgiram daí, e o primeiro Festival de Cinema, o Festival de Veneza, nasceu justamente da primeira Bienal, que ocorreu em Veneza em 1895 — embora só fosse ganhar um braço dedicado à chamada “Sétima Arte” décadas depois, em 1932.
Hoje em dia, existem mais de 12 mil festivais de cinema pelo mundo, mas apenas alguns poucos têm tamanho e reputação grandes o suficiente para pautar o debate sobre essa arte durante o ano inteiro. Dentro eles, há cinco grandes festivais que são observados avidamente por cinéfilos do mundo todo, todos os anos: Sundance (EUA), Berlim (Alemanha), Cannes (França), Veneza (Itália) e Toronto (Canadá). É claro que, com a globalização, muitos outros festivais locais são capazes de furar a bolha e levar filmes ao estrelato. Existem ainda festivais especializados em animação, em gêneros como terror e ficção científica, entre outros. Por isso, precisamos entender um pouco sobre cada um desses grupos para compreender melhor a dinâmica dos festivais e a sua relevância.
Cannes, o líder indiscutível
Quando se fala em festival de cinema, o nome do Festival de Cannes, na França, é sempre o primeiro a vir à mente. É um festival exclusivo para convidados, e é lá que é entregue a Palma de Ouro, considerada a maior honraria do cinema (maior até mesmo do que o Oscar de Melhor Filme), além de muitos outros prêmios. Ele acontece anualmente em maio, concentrado em um prédio que um dia foi o cassino da cidade de Cannes, na Riviera Francesa. Sua primeira edição foi em 1946, há oitenta anos, mas, na realidade, ele havia sido planejado para 1939 como uma alternativa política a Veneza, já que, à época, à Itália era governada pelos fascistas. No entanto, sua realização foi adiada devido ao início da Segunda Guerra Mundial. A icônica Palma de Ouro, por sua vez, só viria a ser inventada em 1955, e a primeira foi vencida por Marty, do cineasta americano Delbert Mann.
Ao longo dessas oito décadas, Cannes premiou filmes do mundo inteiro, como A Doce Vida (1960), Taxi Driver (1976) e Parasita (2019). Esse processo de premiação ocorre na chamada “mostra competitiva” do Festival, à qual só chegam os filmes que entram para a Seleção Oficial de Cannes após um longo processo. Primeiro, a organização do Festival constitui um comitê de cineastas, produtores, críticos e profissionais da indústria; eles assistem às mais de 2000 obras enviadas anualmente e decidem por um número reduzido de selecionados, com a palavra final cabendo ao Delegado Geral de Direção Artística do Festival (hoje, Thierry Frémaux). Em seguida, um júri seleto de apenas nove membros, sempre composto por grande nomes da indústria, assiste a todos os selecionados durante as exibições oficiais no Festival e delibera.
A Palma de Ouro não é o único prêmio do festival, e é seguida em importância pelo chamado Grand Prix, em segundo lugar, e o Prêmio Especial do Júri, em terceiro. O Festival também premia categorias como Direção, Roteiro, Atuação e outras mais técncias. Apesar da mostra competitiva ser o evento central do Festival, também ocorrem as chamadas “mostras paralelas”. A principal é a Un Certain Regard (“Um Certo Olhar”), também oficial, que premia filmes ousados e inovadores. Entre as não-oficiais, se destacam a Quinzena dos Cineastas, focada em cinema independente, e a Semana da Crítica, focada em diretores estreantes.
No entanto, além das premiações, mostras especiais e presenças ilustres, Cannes também hospeda o maior mercado de cinema do mundo — a chamada Marché du Film. Esse também é um evento oficial, que funciona como uma feira para realizadores e produtoras encontrarem as distribuidoras para seus filmes. A Marché não é exclusiva para filmes da Seleção Oficial, e inclui obras das mais variadas — do Brasil à China, da ação ao terror, dos menores aos maiores orçamentos. Ela é concentrada no pavilhão oficial, na forma de estandes construídos pelos participantes, mas acaba ocupando localizações por toda a cidade durante o Festival.

Completando a trindade da Europa: Berlim e Veneza
Falamos um pouco sobre Cannes, mas ele não é o único festival de grande porte na Europa. A “Santíssima Trindade” dos festivais europeus é completada pelos Festivais de Berlim e Veneza.
O Festival de Berlim, ou Berlinale, acontece todo ano em fevereiro, e é o mais jovem entre os três principais festivais europeus, tendo ocorrido pela primeira vez em 1951. Ele é o maior festival aberto ao público do mundo, e acontece de forma decentralizada em diversos cinemas da capital alemã. Apesar de mais curto, sua estrutura é similar à de Cannes: há uma mostra competitiva, que entrega o Urso de Ouro e as demais premiações (os Ursos de Prata), uma mostra para diretores estreantes ( a mostra “Perspectivas”) e uma para obras vanguardistas (a mostra “Panorama”). A principal diferença, porém, está em seu foco: o Berlinale é considerado o mais político dos festivais, e frequentemente prefere filmes menores e mais independentes, mas com um teor social mais elevado.
Entre os filmes catapultados pela vitória em Berlim, destacam-se a sequência de vencedores Além da Linha Vermelha (1999), de Terrence Malick, Magnólia (2000), de Paul Thomas Anderson, e A Viagem de Chihiro (2001), de Hayao Miyazaki — consagrando três anos seguidos em que o vencedor do Urso de Ouro alcançou mais reconhecimento do que o vencedor da Palma de Ouro.
Por sua vez, o Festival de Veneza, o mais antigo do mundo, mantém seu prestígio até hoje. Ao mesmo tempo, é também o festival europeu que mais dialoga com o circuito do cinema americano, sendo frequentemente visto como a “largada” para filmes que almejam uma boa performance na temporada de prêmios. Seus vencedores incluem desde clássicos inquestionáveis como Rashomon (1951), de Akira Kurosawa, até obras contemporâneas de grande impacto como O Segredo de Brokeback Mountain (2005), de Ang Lee. Também passaram pelo festival filmes como La La Land (2016), Coringa (2019) e Nomadland (2020). Sua maior honraria é o Leão de Ouro, entregue na mostra competitiva.

Sundance e o cinema independente americano
Bastante diferente dos europeus, o Festival de Sundance é o responsável por abrir o ano, ocorrendo anualmente em janeiro em Salt Lake City, nos Estados Unidos. Sundance foi fundado em 1978 e é considerado até hoje a principal janela do cinema independente norte-americano. Foi lá que foram revelados nomes hoje considerados gigantes da indústria, como Quentin Tarantino (que lançou Cães de Aluguel na edição de 1992), Wes Anderson (com Pura Adrenalina, que passou pelo festival em 1994) e Christopher Nolan (que exibiu seu filme de estreia Seguinte em uma mostra paralela em 1998 e retornou com Amnésia em 2001).
Sua principal honraria é o Grande Prêmio do Júri, dividido nas categorias de drama e documentário e exclusivo para obras de autores estadunidenses. Também são entregues alguns prêmios para o “Cinema Mundial”, abrindo espaço para diretores estrangeiros, e uma série de prêmios do público, que são escolhidos em uma votação aberta para todos os atendentes (diferentemente de Cannes, boa parte das mostras do festival disponibilizam ingressos para venda, embora as vagas sejam mais limitadas do que em um festival como o Berlinale).
Um dos diferenciais de Sundance é o papel que a organização do festival, o Instituto Sundance, desempenha para além do evento. A instituição sem fins lucrativos foi fundada pelo ator e diretor veterano Robert Redford e disponibiliza uma série de cursos presenciais e online, organiza o renomado Laboratório de Direção (um intensivo de algumas semanas focado em técnica e mentoria, por onde passaram alunos como Tarantino, Paul Thomas Anderson e Ryan Coogler) e ajuda a financiar não apenas filmes independentes, como também a ida de jovens diretores para especializações em grandes universidades mundo a fora.

O TIFF e os caminhos para Hollywood
Fechando a lista dos cinco maiores festivais está o Festival Internacional de Toronto, conhecido pela sigla em inglês TIFF. Ele combina a conexão com Hollywood de Veneza com a abertura ao público do Berlinale, ocorrendo anualmente em setembro desde 1976. Todos os seus prêmios recebem a alcunha de “People’s Choice”, pois são justamente entregues pela audiência após uma votação aberta entre todos os atendentes.
Essa abertura ímpar faz com que o TIFF seja visto por muitos diretores como o maior teste possível para os seus filmes: lá, eles são exibidos para uma ampla audiência de cinéfilos, que costuma emitir opiniões sem filtros. Também por esse motivo, o festival costuma ser usado com frequência como a faixa de largada para campanhas ao Oscar. Passaram por lá filmes ganhadores da estatueta dourada como Beleza Americana (1999), Guerra ao Terror (2008) e 12 Anos de Escravidão (2013), todos aclamados pela audiência local e, com isso, impulsionados para a temporada de premiações.

Outros festivais
Agora que já falamos dos “Cinco Grandes”, podemos também olhar para outros festivais que ocupam um lugar especial na cena internacional.
Um deles é o recluso Festival de Telluride, pouco midiático, que ocorre em uma pequena cidade no estado americano do Colorado. Ele acontece por poucos dias em setembro, a portas fechadas, e é famoso por marcar a estreia nos Estados Unidos de alguns dos principais nomes apresentados em Berlim e Cannes, ao mesmo tempo em que ajuda a revelar filmes americanos independentes que não participaram da seleção de Sundance, como Moonlight (2016) e Lady Bird (2017).
Em seguida, entre setembro e outubro, ocorre o Festival de Nova Iorque. Ele é pensado como uma mostra de “melhores do ano” e, por isso, realiza uma curadoria que inclui alguns dos destaques lançados em festivais fora dos Estados Unidos e foca sua mostra de lançamentos para a cena local. Algo similar ocorre com o Festival de Londres, organizado em outubro pelo British Film Industry e visto como uma vitrine internacional para filmes que buscam adquirir distribuição no Reino Unido e se projetar para a temporada de prêmios, além de lançamentos locais.
Merecem destaque também os festivais focados em gêneros ou formas de cinema específicas. É o caso do Festival de Annecy, o maior festival de animação do mundo, que ocorre anualmente em junho na França. Além disso, há também a tríade de grandes festivais dedicados a “filmes de gênero” (conceito um tanto datado que abarca terror, ação, ficção científica e fantasia). Ela é composta pelo Festival de Sitgnes (na Espanha), o Fantasia (em Montreal, no Canadá) e o Fantastic Fest (em Austin, Texas).
Por fim, há também os festivais de grande prestígio regional. É o caso do Festival de Busan, na Coréia do Sul, e do de Shangai, na China, muito voltados para seus mercados domésticos. Na América Latina, merece destaque o Festival de Gramado, o maior do Brasil, e o de Guadalajara, o maior do México. Na África, o maior festival é o FESPACO, ou Festival de Ouagadougou, em Burkina Faso, que integra a chamada Bienal Pan-Africana de Cinema e Televisão. O FESPACO é focado em obras em línguas nativas e filmes da diáspora africana.







