Em Citadel, série do Prime Video, uma agência internacional de espionagem atuou secretamente durante décadas, reunindo agentes de diferentes países com a missão de proteger a humanidade. Independente dos interesses de qualquer governo, a organização acabou entrando em rota de colisão com bilionários influentes e foi praticamente destruída por um ataque que eliminou grande parte de seus membros. Os poucos sobreviventes agora tentam reconstruir a agência, retomar suas operações e buscar vingança pelos colegas que perderam. Criada pelos irmãos Russo — responsáveis por sucessos da Marvel como Vingadores: Ultimato — e estrelada por Priyanka Chopra e Richard Madden, a produção consumiu cerca de 300 milhões de dólares, tornando-se a segunda série mais cara já produzida pela Amazon, atrás apenas de O Senhor dos Anéis: Os Anéis de Poder.

Embora tenham perdido espaço nas telonas, as histórias de espionagem vivem um momento de grande destaque nos serviços de streaming. Com ingredientes tradicionais do entretenimento, como explosões, perseguições, cenários internacionais, conspirações e mistérios, o gênero continua atraindo o público ao refletir, de certa forma, os receios do mundo contemporâneo. Em um cenário marcado por instabilidade política, desinformação e crescente desconfiança entre governos, essas narrativas ganham ainda mais credibilidade e, mesmo de maneira superficial, levantam reflexões sobre geopolítica e a eterna expectativa de que o lado certo prevaleça no fim.

Nascidas na literatura do século XIX e consolidadas ao longo do século XX, especialmente durante o período da Guerra Fria e do pós-guerra, as histórias de espionagem costumavam apresentar inimigos claramente definidos. Nas décadas de 1960-70, James Bond combatia agentes soviéticos; depois dos atentados de 11 de Setembro, o foco passou quase exclusivamente para o terrorismo vindo do Oriente Médio. Hoje, em um mundo cada vez mais conectado e tecnológico, as ameaças se diversificaram. Países tradicionalmente vistos como adversários dos Estados Unidos, como Coreia do Norte, Irã e Rússia, continuam presentes, mas agora dividem espaço com problemas internos das democracias ocidentais e com grandes empresas e bilionários que exercem influência crescente sobre a política internacional.

Esse novo panorama aparece com clareza na versão mais recente de Jack Ryan, também do Prime Video, inspirada na famosa série de livros de Tom Clancy. Ao longo de suas quatro temporadas, exibidas entre 2018 e 2023, o agente da CIA interpretado por John Krasinski enfrentou terroristas árabes, milícias venezuelanas e, posteriormente, descobriu que seus maiores inimigos estavam dentro da própria agência. A história teve continuidade no filme Jack Ryan: Guerra Fantasma, lançado três anos após o encerramento da série, no qual o protagonista retorna para enfrentar um grupo de mercenários. Uma abordagem semelhante pode ser vista em O Agente Noturno, um dos maiores sucessos da Netflix. Na série, Peter Sutherland (Gabriel Basso), agente do FBI, se depara com uma conspiração que alcança os níveis mais altos do governo dos Estados Unidos. Com a quarta temporada já confirmada para o próximo ano, a produção também se destacou financeiramente: segundo levantamento da Parrot Analytics, gerou um retorno estimado em 136,9 milhões de dólares graças à retenção de assinantes, que permaneceram na plataforma e passaram a consumir outras produções do gênero.

Outra transformação importante está no perfil dos protagonistas. O estereótipo do agente invencível e excessivamente másculo vem dando espaço a personagens mais humanos e complexos. Em Teerã, elogiada produção israelense da Apple TV, uma agente da Mossad se infiltra na capital iraniana para enfrentar a Guarda Revolucionária, em uma história iniciada em 2020 que dialoga diretamente com as tensões históricas da região. Também da Apple TV, Slow Horses aposta justamente nas falhas de seus personagens ao acompanhar um grupo de agentes desacreditados do serviço secreto britânico, liderados por um veterano decadente interpretado por Gary Oldman. A Paramount+ também encontrou espaço nesse cenário com Lioness, que começou como minissérie e já garantiu uma terceira temporada estrelada por Zoe Saldaña e Nicole Kidman. As opções se multiplicam para diferentes perfis de público: enquanto Citadel, Jack Ryan e O Agente Noturno seguem apostando em muita ação, explosões e confrontos, produções como Teerã, Slow Horses e Lioness preferem explorar conflitos mais densos e fugir dos clichês tradicionais do gênero. Afinal, os vigilantes do poder estão em todos os lugares.

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