Em meados de junho de 2026, me deparei com o trailer de um lançamento um tanto, sendo o mais imparcial possível nessa parte, “polêmico”. O trailer era do filme Dentro da Baleia.
Para começarmos a analisar os pontos péssimos dessa produção, vamos entender primeiro do que se trata.
Dentro da Baleia trata-se de um filme que conta a história de um mergulhador que é engolido por uma baleia cachalote. Depois disso, fica preso dentro do estômago do animal e precisa encontrar uma maneira de escapar enquanto seu suprimento de oxigênio começa a acabar.
Agora que estamos todos na mesma página, vamos esclarecer algumas coisas. Primeiro, você precisa entender o que é uma cachalote e por que ela não é apenas uma “baleia imensa”. Cachalote é uma nomenclatura popular. Existem três espécies de cachalotes, sendo elas: a cachalote-comum (Physeter macrocephalus), a cachalote-pigmeu (Kogia breviceps) e a cachalote-anão (Kogia sima). No filme em questão, a espécie representada é a cachalote-comum (Physeter macrocephalus), conhecida como o maior cetáceo dentado do mundo.
Os machos podem chegar a até 18 metros de comprimento, então sim, são animais enormes. E não, isso não é a coisa mais legal sobre eles.
Esses animais “enxergam” através do som. Utilizam a habilidade de ecolocalização para mapear o ambiente a quilômetros de distância, entendendo onde há obstáculos, presas, perigos etc. E se comunicam através de “cliques”, chamados de codas. São sequências de sons que variam de acordo com a população, os grupos, os comportamentos e até mesmo com a presença ou não de embarcações. Estudos recentes também encontraram fortes evidências de que esses animais utilizam assinaturas vocais individuais funcionalmente semelhantes ao que chamamos de “nomes”. Em alguns grupos, cada indivíduo parece possuir sua própria assinatura vocal, utilizada pelos demais membros.
Apresentam comportamentos sociais complexos e consolidados, sendo sensíveis e comunicativas entre si. Nessa altura você já deve imaginar que estamos falando de um predador altamente especializado. Sua habilidade de ecolocalização, seu comportamento de caça e o tipo de presa que captura tornam a ideia de confundir um mergulhador com uma lula não só extremamente improvável, como ridícula.
Pois bem, vamos entender de uma vez por todas por que você NÃO VAI SER ENGOLIDO POR UMA CACHALOTE.
As cachalotes são animais de grandes profundidades. Frequentemente realizam mergulhos acima de 1.000 metros e podem alcançar quase 3.000 metros de profundidade. Sua dieta é composta principalmente por grandes lulas oceânicas e peixes de profundidade, incluindo lulas gigantes e, ocasionalmente, lulas colossais. Isso significa que elas não sobem até a superfície? Claro que não. Caso contrário, teríamos menos registros delas do que temos hoje (que ainda são poucos quando comparados com outras espécies de cetáceos de profundidades mais amenas, como as jubartes, por exemplo).
O ponto é que, no trailer do filme, já fica claro que o mergulhador foi engolido durante a alimentação justamente de uma lula colossal. Se, por algum motivo de alinhamento estelar, uma lula colossal subisse até a superfície estando saudável o suficiente para travar uma das maiores batalhas do oceano com uma cachalote adulta e um ser humano ficasse no meio desse confronto, cientificamente falando seria extremamente improvável a sobrevivência. Não pela agressividade da cachalote, mas pelo seu tamanho. Seria muito mais provável e muito mais crível que o mergulhador fosse atingido por uma cauda, uma nadadeira ou até mesmo pela própria lula do que ser engolido pela cachalote.
Elas engolem presas gigantes? Sim.
Você caberia na garganta de uma cachalote? Teoricamente, sim.
Você é uma lula ou um peixe? Não.
Inclusive, existe um caso bastante famoso que aconteceu em 2021. Um mergulhador de lagostas, nos Estados Unidos, acabou acidentalmente dentro da boca de uma baleia-jubarte (Megaptera novaeangliae) enquanto ela se alimentava. Poucos segundos depois, o animal o expulsou. O episódio repercutiu no mundo todo e, apesar de extraordinário, reforça justamente o que a ciência já sabia: cetáceos não reconhecem seres humanos como alimento. O fato de uma baleia conseguir colocar uma pessoa dentro da boca não significa que ela seja capaz ou sequer tenha a mínima intenção de engoli-la.
As cachalotes utilizam um sistema de caça altamente especializado e identificam suas presas por meio da ecolocalização. Uma lula possui formato, densidade, comportamento e composição completamente diferentes dos de um ser humano. Nós simplesmente não fazemos parte do conjunto de estímulos que esses animais reconhecem como alimento.
Sem contar que, caso alguém fosse parar no interior de uma cachalote, morreria rapidamente por falta de oxigênio muito antes que a digestão fosse um problema. Tudo isso poderia ser resumido com: elas são muito inteligentes, mas, acima de tudo, nós simplesmente não fazemos parte do cardápio delas.
Você já está encantado por esses animais? Espero que sim. :)
Nenhum filme precisa ser realista, caso contrário não teríamos inúmeras obras incríveis de fantasia. Mas é preciso muito tato na hora de desenvolver uma trama que fomenta ainda mais a demonização, já tão normalizada na nossa sociedade, de animais marinhos.
“E o que eu tenho a ver com isso?”
Tudo. Você tem tudo a ver com isso.
A caça às baleias ainda é uma realidade em alguns países, e esses animais são extremamente importantes para nossa sobrevivência. Elas desempenham um papel fundamental na ciclagem de nutrientes dos oceanos, ajudam na produtividade do fitoplâncton (o responsável por grande parte do oxigênio que respiramos) e ainda contribuem para o “sequestro” de carbono, desempenhando um papel imprescindível na regulação climática do planeta.
Lançar um filme como esse em 2026 é, no mínimo, irresponsabilidade. Se não for má intenção. Como se os desafios de conservação já não fossem, por si só, grandes o suficiente.
Portanto, depois dessa conversa, espero que você entenda não só que não há motivo para temer esses animais, que são tão incríveis e complexos, como também que tudo o que você deveria sentir e propagar sobre eles é: admiração.
Sigamos em busca de mais conhecimento.
E, se depender de mim, boicote essa piada que se intitula filme.
Referências
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INTERNATIONAL WHALING COMMISSION (IWC). Commercial Whaling. https://iwc.int
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NOAA Fisheries. Sperm Whale (Physeter macrocephalus). https://www.fisheries.noaa.gov/species/sperm-whale
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WHITEHEAD, Hal. Sperm Whales: Social Evolution in the Ocean. The University of Chicago Press, 2003.
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WHITEHEAD, Hal. The Cultural Lives of Whales and Dolphins. The University of Chicago Press, 2017.
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SHARMA, Abasa et al. Contextual and combinatorial structure in sperm whale communication. Nature Communications, 2024.
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ROMAN, Joe et al. Whales as Marine Ecosystem Engineers. Frontiers in Ecology and the Environment, v. 12, n. 7, 2014.
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CHAMI, Ralph et al. Nature’s Solution to Climate Change: A Strategy to Protect Whales Can Limit Greenhouse Gases and Global Warming. International Monetary Fund (IMF), 2019.
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PACKARD, Michael. Entrevistas concedidas à Associated Press e à CBS News sobre o incidente ocorrido em Provincetown (Massachusetts, EUA), em 2021.





